quinta-feira, 25 de agosto de 2016

SOMOS POLÍTICA


Sim, somos política, não políticos (pessoas em cargos de poder).

Proponho repensar a relação que fazemos entre o público e o privado, entre o íntimo e o aparente, entre o que somos e o que “performamos” ser.

Imagine que você é (se é que o verbo “ser” ainda tem algum sentido) apenas o que está em seu íntimo, dentro de você, seja lá o que “dentro” signifique.

Tudo que é apreensível pelo mundo, pelo outro, seu corpo, sua cor, suas ações, suas expressões, suas roupas, sua voz, seus intestinos, é, portanto,  a performatividade do seu ser no mundo.

E performar é diferente de ser (a realidade filosófica disso não importa, mas apenas o jogo mental que isso possibilita).

Qualquer parte sua que é apreensível pelo outro e se relaciona com ele é sua expressão pública, portanto, política.

Consideremos a mentira de que você tem uma alma, que seria seu âmbito privado, o seu íntimo. Seu pênis ou vagina, a tonalidade da sua pele, seus gestos, comportamentos, é tudo do âmbito público, justamente porque podem ser apreendidos e, portanto, são compartilháveis.

O que é de âmbito privado não pode ser compartilhado, pertence ao íntimo, à suposta alma.

Essa ideia de privado relacionada ao corpo (ou à casa, ou ao seu email) é uma tese imposta à nossa experiência da vida. Disseram a você que seu corpo é privado para que você o esconda, mas, de fato, ele é um fato social.

Oi? Então, meu corpo está à mercê da vontade alheia? Não faço dele o que eu quiser?

Faz e não faz. Faz, mas não está fazendo.

Para você fazer o que quiser com seu corpo, você depende de leis. Por exemplo: você não pode tirar um filho da sua barriga se a lei do seu país assim determinar, mesmo a barriga sendo sua. Você não pode arrancar sua orelha sem que seja internado (preso) num manicômio. Você não pode ir à qualquer lugar do mundo, ou andar nu pela rua. Você não pode tirar seu pênis e fazer dele uma vagina sem uma permissão legal para isso.

Para modificar seu corpo você precisa se adequar às leis, às normas. E leis são instrumentos de âmbito público. Seu corpo é público, está submetido a polis.

Uma moça nascida na Gâmbia antes de 2015 teria seu clitóris arrancado, independente da vontade dela. Foi necessária uma lei, que vigorou a partir dessa data, para que essa prática fosse criminalizada, já que a tradição assim permitia (outro tipo de lei).

Você pode argumentar que a luta pelos Direitos Humanos é justamente a de dar à vontade do indivíduo o poder sobre seu corpo (sua vontade não é o que você é, é apenas sua vontade). E mesmo que todas as leis do mundo permitam que cada pessoa decida por ter ou não um clitóris ou uma orelha (quem arranca a própria orelha sai da norma de sanidade), ainda assim essa possibilidade deve ser sustentada por uma legislação, ou seja, é definida pela polis, por isso se chama “direito”.

O corpo já é um ato político assim que você nasce. Você não pode existir sem que se relacione com o outro, com o mundo, com a polis. Aliás, essa é a condição inerente à existência.

Decidir quem manda nesse corpo, quais normas se impõem a ele (sejam jurídicas, religiosas ou científicas) é uma discussão pública, o que torna seu corpo política.

Já sobre sua alma, sobre o seu íntimo, ninguém consegue ou pode criar leis (embora a religião continue tentando!).

PS: se a alma é política ou não vou deixar pra outra reflexão, pois terei que me desfazer de todos os argumentos que vou sustentar agora.

Na verdade, não estou querendo diferenciar a alma do corpo, pois essa distinção é meramente fictícia e não real; ela só é realidade para as religiões. Mas servirá agora como linguagem (portanto ficção) para o entendimento entre algo que é íntimo em nós (tenha o nome que tiver: consciência, alma, espírito, psique, imanifesto, etc.) e algo que é acessível ao outro.

Mais importante do que tentar definir filosoficamente o que é alma ou corpo (tormento dos filósofos, não meu), é entendermos que nossa existência, em ato, é uma expressão política, aquilo que pertence ao âmbito da polis.

E por “ato” não estou me restringindo a ações e comportamentos, mas às expressões do ser que sejam apreensíveis pelo outro. O corpo é, portanto, um ato nesse sentido.

Tanto é assim, que nada em nosso corpo e na expressão dele está à margem do processo histórico.
Se você nasce com a pele de cor mais escura, dependendo da época e do país, sua vida será submetida a uma série de leis e comportamentos sociais.

Se você nascer com uma vagina na Idade Média, você terá uma vida diferente do que se você nascer com um pênis nessa mesma época.

Mas, independente da vagina ou do pênis, e da existência imposta a você em consequência disso, sua vida íntima não será regida por esses fatores. Será afetada, porém não regida, mesmo que você seja uma pessoa totalmente manipulável mentalmente.

Há controvérsias de várias ordens, mas elas não determinam o que você é. Determinam apenas o como você vive. (Como se houvesse distinção entre ser e existir, mas vamos fingir que haja).

O que você é? Não é nominável.

Só podemos nominar o que “performamos” ser.

Podemos dizer que você é homem, mulher, branco, preto, advogado, criança, idiota ou feliz.

Será que essas nominações não dizem acerca do que você realmente é? Ou dizem apenas sobre o que aparenta, sobre o que parece ser, sobre como você é “visto”, apreendido pelos outros, sobre a performatividade de sua existência no mundo?

Confundimos esses nomes, essas denominações, essa performatividade, com o que somos realmente.

Se você nasceu em 1764, na Inglaterra, com um pênis, disseram a você que você era um homem. Sua experiência íntima da existência não estava limitada a essa nomenclatura, mas sua experiência pública sim. Não importa o que você sentisse a respeito de si mesmo, sua relação com o mundo estava restrita ao que cabe ao homem ser, sentir ou fazer.

Já se você nascer com esse mesmo pênis na França em 2016, apesar de ainda ser considerado homem, a amplitude da sua relação com o mundo será outra. Você, por exemplo, poderá afirmar que é uma mulher, poderá trocar seu pênis por uma vagina e, assim, ganhará a denominação de mulher trans.

Nomes. Normas. Denominações.

Nada disso designa sua alma, sua experiência íntima de si mesmo, apenas sua experiência pública, sua expressão social, os sentidos atribuídos ao que você é.

Os sentidos atribuídos ao que você é não são você.

A esses “sentidos atribuídos” vamos dar o nome de performatividade.

Um corpo perfeito e capaz é uma performatividade.

Se você não tiver os braços e ainda assim fizer belíssimas pinturas com os pés, você será considerado defeituoso, imperfeito e incapaz. Deficiente físico será sua performatividade. Porém se toda sua sociedade não tiver braços sua performatividade será a da perfeição.

E assim, a tudo se aplica.

No entanto, como apontado anteriormente, essas definições sobre o que você é (que não são você intimamente) são estabelecidas no mundo, pelo mundo. Públicas. Políticas.

Todas as definições a seu respeito variam conforme a época, o lugar, a sociedade nos quais você está inserido.

Peraí, mas a mulher e o homem sempre existiram, antes de serem chamados assim.

O que sempre existiu foram o ser com pênis, o ser com vagina, o ser com pênis e vagina, o ser sem pênis ou vagina, o ser com pênis e útero, o ser com vagina sem útero, e diversas outras possibilidades que não foram descritas porque não foram aceitas.

Em certo momento o ser com pênis foi chamado homem e o sem pênis foi chamado de desvio da natureza.

Depois, chamaram o ser com pênis de homem e o sem pênis de mulher.

Aí, então, chamaram o ser com vagina de mulher, o ser com pênis de homem, e todas outras variáveis foram chamadas de desvios da natureza.

E assim caminhou a humanidade, chamando e deschamando os seres.

O importante nesse processo todo é compreender que as designações que você recebe não determinam o que você é. Você não precisa delas para existir, você apenas existe.

O que essas designações importam é em como você vai se relacionar com os outros.

É aí que você se torna Política.

Ao perceber que seu íntimo, o que você é (para além dos nomes), não está ameaçado por essas designações, não será modificado por elas, você pode parar de sentir medo. Ninguém pode modificar sua alma, nem dizer como ela é ou não é, porque a alma é inominável. Até o termo “alma” não dá conta do que ela é (inclusive o verbo “ser” perde o sentido aqui).

Mais ainda: você pode se desidentificar desses rótulos e usá-los, reconhecê-los como ficções políticas (linguagem) criadas para a sua relação com o mundo.

É fundamental você tomar consciência de que a forma como se apresenta ao mundo, sua performatividade, é uma escolha.

Sua escolha?

Aí depende da sociedade em que você está inserido. Para cada organização social essa escolha será mais ou menos definida pela polis. O que torna essa escolha uma questão política.

Mas se essa escolha da sua performatividade é mais definida por você ou pela sociedade, ainda assim essa escolha é pública e não privada.

De novo. O fato de sua expressão no mundo ser uma escolha sua não torna essa escolha privada, no sentido que venho empregando. Não é porque foi você que escolheu que ela é privada. Essa é a distinção que pretendo fazer. Ela não é privada, apesar de ser uma escolha pessoal, porque o objeto da escolha (sua performatividade) é um fato público, uma ficção política (conforme tudo que sustentei anteriormente).

Se a organização social for mais definida por um poder centralizado, mais ditatorial, sua performatividade será restrita a um conjunto de normas externas a sua vontade (sua vontade não é o que você é, já afirmei).

Se for uma sociedade mais igualitária, democrática, sua vontade individual será menos normatizada. Em ambos os casos o fato é público e, portanto, político.

Seu ato político está muito mais implicado na sua vida pessoal do que querem que você perceba.
Você acredita que sua participação na vida pública, na vida coletiva, está restrita ao que acontece fora da sua casa, fora do seu corpo, fora das suas escolhas pessoais (o que te ensinaram a chamar de privado), mas esse é o seu engano. E esse engano está servindo para que o poder estabelecido imponha as normas que afetam sua casa, seu corpo e suas escolhas pessoais, porque são públicas.

Pra que todo esse blablablá?

Pra dizer que sua cor, seu gênero, seu sexo, suas roupas, sua profissão, sua idade, seus defeitos e suas qualidades, sua orientação sexual, sua classe social, seu nome, seus comportamentos, seus pensamentos, suas escolhas ou sua vontade NÃO SÃO VOCÊ.

São construções, são denominações, são ficções políticas.

E por isso não existem?

Ah, sim, existem e muito. Mas podem ser alteradas, modificadas, sem que você deixe de ser quem ou o que você é.

Portanto, pare de confundir o que você é com sua performatividade no mundo!

E passe a reconhecer que sua performatividade no mundo é um ato político.

Você é Política.

Quando nos reconhecermos como Política, não precisaremos mais dos políticos, pois seremos nossa própria representatividade.

Assim é se lhe parece.

(texto originalmente publicado na revista virtual Lingua de Trapo)


segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A PESTE BRANCA

Nessa era globalizada e com a crescente rede de informações, é inaceitável que pessoas continuem chafurdadas na ignorância. E por ignorância eu quero dizer o conhecimento PARCIAL de fatos e reflexões. Torna-se ignorante aquele que, mesmo tendo conhecimento profundo sobre uma matéria, conhece-a apenas a partir do mesmo ponto de vista!

Todos nós temos obrigação social de conhecer detalhadamente a história da humanidade.

E por história não estou me referindo às mentiras ou verdades parciais contadas nos livros didáticos, replicadas nas escolas formadoras de pessoas preconceituosas e desinformadas sobre a horrorosa história que vimos construindo nesse planeta.

De todas as mentiras repetidas há séculos, vamos tratar das construções criadas, por diversos poderes, sobre as diferenças raciais.

Embora o racismo entre povos seja antigo, no período das grandes navegações, invasões e conquistas de novas terras, o racismo atingiu seu ápice em horror e tragédia.

O mundo eurocêntrico, com seu pensamento mercantilista, dotado de força armamentista crescente, tecnologia e com doentia ambição pelo máximo controle sobre outros povos, invadiu centenas de terras estrangeiras e exterminou milhares de pessoas. Eu não disse guerreou, eu disse exterminou.

Seus vetores destrutivos tinham por um lado a vontade de exterminar todas as culturas que não estivessem submetidas ao padrão civilizatório por ele mesmo estabelecido e por outro a vontade de submeter seres humanos aos seus interesses.

O pensamento eurocêntrico, egocêntrico, entendia (e ainda entende) que sua forma de vida e civilização era a melhor e única forma decente, avançada e coerente a ser experimentada por todos os seres humanos. Ainda há quem concorde!!

Todas as culturas, tecnologias, sabedorias, práticas religiosas, culinárias, expressões artísticas, organizações sociais que não tivessem origem no pensamento eurocêntrico foram consideradas atrasadas, demonizadas, primitivas, selvagens e até animalescas.

O objetivo na desmoralização dessas outras culturas era escravizar seres humanos.

A escravatura não é apenas uma expressão da maldade humana, um exercício de crueldade desinteressado, é também uma eficiente forma de enriquecer sem fazer esforço. Estou falando de riqueza material obviamente, já que é um empobrecimento espiritual sem precedentes.

Os povos eurocêntricos, que a partir de agora vou chamar de “brancos”, fizeram uma varredura genocida por todos os pedaços de terra que conseguiram alcançar.

Isso não é suposição, não é julgamento, é apenas realidade histórica.

Só na época mercantilista, os brancos exterminaram, direta ou indiretamente, mais gente que em todas as guerras em todos os tempos. Civilizações inteiras foram minuciosamente eliminadas.

(Se estiver achando exagero, releia o primeiro parágrafo.)

Documentos históricos e pesquisas modernas nos revelam que toda a história moderna foi escrita e contada a partir de um único ponto de vista: o do branco.

Todas as outras experiências de vida, relatos, provas, filosofias foram eliminados ou obscurecidos, desde a Idade Antiga, com o intuito de fazer prevalecer uma única perspectiva histórica.

Para efetivar essa empreitada de demolição das verdadeiras histórias vivenciadas pelos seres humanos, para fazer valer esse projeto de poder, vários setores do conhecimento humano se uniram no mesmo objetivo.

O papel da Igreja Católica foi dar a principal base filosófica para esse projeto, chegando a afirmar que os povos não brancos eram destituídos de alma, embora outras linhas da filosofia também acrescentassem a essa vertente racista.

Toda uma narrativa mítica e um vocabulário foram sendo formatados para distinguir qualidades humanas e criar o mais pernicioso instrumento de dominação entre povos: o preconceito. Embora essa construção já viesse sendo elaborada desde o nascimento do mundo ocidental, na Grécia, foi a Igreja Católica que conseguiu consolidar popularmente os cânones do que seria o homem bom e mal, sadio e doentio, superior e inferior.

Outro importante consolidador dos instrumentos de dominação foi a Ciência.

Desde a Idade Média até os tempos de hoje, a Ciência, supostamente atestadora da realidade indiscutível, detentora da verdade comprovada, criou todas as bases para o que hoje conhecemos como racismo.

Diversos estudos e postulados foram desenvolvidos para comprovar o que Deus, ou a Natureza, não criou: as raças.

O termo raça foi cunhado por Lineu no século XVII e referia-se à classificação de diferentes populações de uma mesma espécie biológica. Até então as distinções entre grupos humanos davam-se em torno de conceitos etnocêntricos, pois eram pautados em questões culturais, e não de “raça”.
No século XIX, o Conde de Gobineau escreveu o “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas”, trazendo à tona a ideia das diferenças e hierarquização raciais. Ideia que, apesar de obtusa, difundiu-se. Alguns apoiaram-se equivocadamente em Darwin e sua teoria da evolução das espécies para consolidar o racismo.

Antes do século XIX, considera-se que predominava uma visão etnocentrista e não racial.

Hoje, com os estudos da nova física, conseguimos compreender que nem mesmo um cientista está isento de sua moralidade para observar a realidade. Se antes se entendia que esse profissional era o único capaz de observar a realidade com isenção, sem interesses e total objetividade, hoje se sabe que essa capacidade é impossível. Não existe uma realidade totalmente objetiva apreensível pelo ser humano.

Sendo assim, embora as descobertas científicas tenham melhorado significativamente nossa vida no planeta, inúmeros estudos dessa natureza serviram apenas para fortalecer o poder do branco sobre todos os não brancos.

Todas as bases do racismo sobre diversos povos, ao cúmulo da formulação do pensamento eugênico, foram formuladas pela ciência.

Essas duas frentes de construção da realidade foram terrível e sabidamente aproveitadas, financiadas e incentivadas pelo poder político e econômico.

O antigo mercantilismo e o nascente capitalismo aproveitaram essa formatação mental e afetiva que veio sendo lapidada.

A introjeção seja de postulados religiosos ou de postulados científicos insuflou a pior forma de subjugação entre seres humanos: o racismo.

E este projeto de poder foi tão bem executado que, mesmo hoje tendo sido destruída a teoria das raças, e sendo questionada a teoria das etnias, há uma imensa população que perpetua esses conceitos e suas consequentes atrocidades.

O problema é de tamanha profundidade que seres humanos são capazes de torturas físicas, emocionais e psicológicas contra outros seres humanos, baseadas em teses falaciosas, conflitos esses eficientemente aproveitados pelo poder econômico e político.

Muitos povos foram chamados de “negros” ao longo da história, sempre de forma pejorativa contra os grupos dominados e para sustentar essa dominação, mesmo quando não haviam brancos no poder estabelecido.

Porém, com a consolidação do poder eurocêntrico e a instituição do conceito de raça branca, negra e amarela, foram os povos do continente africano que receberam esse título, e toda sua carga conceitual, e até hoje são assim designados. Conhecidos como “negros”, termo supostamente justificado pela cor escura da pele, os povos afrodescendentes são o grupo humano que permaneceu escravizado por mais tempo, e em maior número, na história da humanidade.

Enquanto os amarelos foram deixados de lado pelos interesses de dominação, brancos impuseram aos negros, agora exclusivamente afrodescendentes, um rompimento histórico e definitivo.

Apesar das mais recentes pesquisas apontarem o nascimento da humanidade no continente africano, não só genética, mas culturalmente, o preconceito de brancos contra negros não diminui e se perpetua. Esse preconceito levou o nome de racismo.

Repetindo: racismo é o todo o processo histórico de dominação, extermínio e subjugação do branco sobre o negro (existem outras formas de racismo na história, mas sempre apoiadas nesse mesmo processo de dominação. Qualquer forma de discriminação, por exemplo, de negros contra brancos não é chamada de racismo porque não está baseada num processo histórico de dominação, sendo chamada de preconceito. Ou seja, preconceito é uma discriminação pontual e racismo é uma discriminação processual, histórica).

Teorias antigas e absurdas, como a que indicava que negros eram descendentes do cruzamento entre mulheres brancas e macacos (não fui eu quem inventou essa aberração teórica), continuam como base central do racismo em pleno século 21, que impõe outras formas de escravagismo, menos explícitas.

 (Pausa para refletir sobre há quanto tempo essa tortura se perpetua.)

Felizmente e com o custo de muito sangue, os negros vieram traçando um caminho de recuperação de sua identidade cultural. Essa luta sofrida, hoje chamada de empoderamento, colaborou e colabora (junto a outras minorias) na construção dos atuais entendimentos de democracia. A democracia não é uma estrutura criada pelo poder, mas sim uma forma de organização social conquistada pela luta de minorias, sendo a população negra muito importante no amadurecimento desse projeto de organização humana.

Conquistas civis, legais e sociais vêm sendo ampliadas a muito custo, já que o racismo ainda é violentamente presente no comportamento humano.

Finalmente, chegamos ao objetivo desse texto: fazer entender a importância de eliminar o branco, entendido como o vetor de opressão racial.

O que estou sugerindo é o extermínio da população eurodescendente? Obviamente não.

Muitas foram as teses acerca da inferioridade dos negros, dos índios, dos aborígenes, enfim, dos não brancos.

E quais são as teses sobre a inferioridade branca?

Já temos estatísticas suficientes para concluir que há uma doença no gene da branquitude, uma deficiência, ou não?

Enquanto os brancos chamavam os negros de animais, eram eles que assim se comportavam, no pior sentido da expressão. Das focas mortas a pauladas para vender bibelôs de madame, ao estudante negro e homossexual morto à paulada no campus da sua universidade, principalmente o branco heteronormativo vem matando feito um anômalo. Para ele, fora ele, o resto é bicho.

Apenas por vontade de imposição de seus desejos mesquinhos, os brancos europeus aniquilaram culturas, etnias, tecnologias e pessoas aos milhões. Sem exageros, foram mortas milhões de pessoas.
As expedições colonialistas traçaram caminhos de destruição que modificariam a história do planeta para sempre. Mudaram nosso futuro.

Como estaríamos vivendo se todos os povos que foram dizimados não o tivessem sido? Como estaríamos vivendo se não tivesse havido uma violenta imposição da civilização eurocêntrica e sim um compartilhamento de sabedorias entre as diversas culturas?

É muito provável que não estivéssemos a um passo de nossa autodestruição, da destruição da única raça que realmente existe: a raça humana.

Algo, na chamada raça branca, funcionou como uma doença obsessiva, A PESTE BRANCA, e intensificou no ser humano o que ele tem de pior.

Os brancos ficaram cegos, surdos e obsessivos pelo controle do Universo.

De que cor mesmo é o deus cristão?

Branco.

(Jesus, ao longo dos anos, passou pelo mesmo processo que Michael Jackson para clareamento de pele… até ficar branco de olhos azuis, coisa que Michael não conseguiu!)

Por mais que os brancos se esforcem para colocar no negro a imagem de bandido mau-caráter, é a história que está dando cor branca aos piores humanos em todos os tempos.

É estruturado nesse racismo construído que o capitalismo floresce e perpetua suas condutas em novas vestes.

Acho que já passou da hora de estudarmos essa PESTE BRANCA em vez de ficarmos gastando tempo tentando provar que os não brancos não são inferiores.

Se por um lado os negros vão e devem continuar lutando por um sistema de igualdade e respeito, luta essa que deve ser integralmente apoiada por brancos, por outro lado há muito o que fazer para desconstruir o racismo.

A desconstrução do racismo não é uma atitude dos negros (a eles cabe o empoderamento da sua cultura), mas dos brancos, pois é neles que se perpetua essa doença contagiosa.

Não basta apoiar a “causa negra”, que é o mínimo que qualquer ser humano decente deve fazer, mas é imprescindível lutar contra o racismo dentro de si mesmo e no ambiente.

E quando falo de lutar contra o racismo insisto que não basta defender um negro que esteja sendo violentado (faça isso sempre), apoiar políticos e políticas de direitos para negros (sem dar pitaco!), mas reconhecer os privilégios raciais impregnados no cotidiano do branco.

O racismo só vai acabar (tenho fé que consigamos chegar a esse objetivo) quando o branco deixar de ser branco.

Portanto, o que pretendo é me dirigir ao branco, que vive privilégios raciais, para que enfrente a si mesmo e que lute por essa ideia: VAMOS ACABAR COM A PESTE BRANCA que se perpetua em nós!!!


(texto originalmente escrito para a revista virtual LINGUA DE TRAPO : publicação original)


terça-feira, 12 de julho de 2016

VC FOI MODIDO POR UM ZUMBI, JÁ ERA

O que mais estamos nos dando conta é de que não adianta trocar as pessoas que estão no poder, ele sempre será O Poder.
Pior, estamos percebendo que mesmo que eliminássemos o Poder, nossos sofrimentos permaneceriam.
Quais?
Os piores.
Somos nós que estamos nos matando.
Não é o Estado, nem esse ou aquele político, que até incentiva comportamentos violentos, que está saindo pelas ruas matando lgbts, atirando em negros, estuprando crianças, torturando mulheres.
Somos nós.
Não se exima dizendo que são loucos aqueles capazes de atirar uma pedra gigante no crânio de alguém que eles detestam. Não são loucos. Pelo menos não nos termos oficiais dos manuais científicos da loucura.
Mas estão enlouquecidos.
Estamos.
Do que vc é capaz por causa de uma idéia? Vc seria capaz de matar alguém para salvar o mundo?
É isso que essas pessoas estão fazendo: tentando salvar os seus mundos.
Quando a ciência e a religião unem forças para dizer que a homossexualidade ou a transgeneridade são aberrações da natureza, elas criam "um mundo" para milhares de pessoas, no caso, um mundo onde não devem existir aberrações.
Fica difícil desintrojetar essa falsa verdade.
Agora não adianta Papa vir disputar público redimindo os gays!!! A melhor forma que a Igreja Católica poderia redimir a desgraça que causou seria prender TODOS os padres e bispos pedófilos da face da terra!!! Quando todos eles estiverem presos e for desassociada a imagem do homossexual à do pedófilo, podemos começar alguma conversa.
Tipo: nunca.
Os conceitos de mundo que estão permitindo que homens matem lgbts, mulheres e estuprem crianças, atirem em negros, em pobres, foram justificados pela Igreja e Ciência durante séculos.
Quem se importa que negros, lgbts, mulheres estejam sendo exterminados ou violentados, escravizados? Só os negros, lgbts e algumas poucas mulheres.
Os donos do poder não tem poder nenhum se não realizarmos seus intentos. Nós é que fazemos a democracia com nossos comportamentos e não com os 3 Poderes!!!
Se vc se importa mais com o que está acontecendo no Mercado Financeiro do que nos extermínio de pessoas aos seu redor, então preciso te dizer uma coisa: vc foi mordido por um zumbi, já era.


terça-feira, 5 de julho de 2016

RACISMO E EUGENIA


Esse documentário, produzido pela BBC, faz uma retrospectiva do nascimento do racismo durante a colonização do Império Britânico sobre o mundo nos idos de 1800.

Campos de extermínio, de fome, de escravidão, eram os recursos já utilizados pelo ingleses e depois aperfeiçoados por alemães, até à chegada aos campos nazistas.

O preconceito, o racismo, foram construídos com fins de dominação, poder e extermínio.






quinta-feira, 18 de junho de 2015

Um Eduardo Cunha reina dentro de você

É o pior Congresso nacional de todos os tempos! O mais fascista! Essas frases pipocam na rede. Mas, qual é o real problema? Será que todo mundo sabe a extensão do poder legislativo? Acho que não. Nossa vontade de paternalismo acha que o presidente da república é nosso salvador (e destruidor). Para um projeto de lei ser aprovado pelos deputados precisa de maioria. Depois precisa de outra maioria entre senadores. Beleza, digamos que algum projeto-desgraça, tipo redução da maioridade penal, passe por todo o legislativo. Aí a gente fica publicando #vetadilma, na maior esperança que tudo acabe bem. Supunhetemos que o executivo vete o projeto. Esse veto volta para Camara para ser votado. Sim, o voto do presidente é votado na Camara. Se perder, a lei é promulgada. Aí a gente pensa: mas, se ja teve maioria no Congresso pra propor o projeto, obviamente o Congresso vai repetir seu voto e derrubar o veto presidencial. Então, a gente descobre que "politica" não é lógica e muito menos bom senso. É aí que entram termos como mensalão, governabilidade, oferecimento de cargos (rabos), muuuuuito dinheiro e coisas afins. O projeto em si (qualquer projeto), que tem graves consequencias na sociedade, é apenas uma oportunidade para exercer essa "politica". Parece até que os legisladores inventam projetos bem cabeludos para essa máquina de fabricar moedas funcionar. Quanto mais o projeto for contrário ao governo, mais acordos vão rolar, mais promessas serão feitas, mais dinheiro vai circular, para efetivar ou não a proposta. "Bancadas evangélicas" por exemplo, são máquinas de fazer dinheiro através de projetos de moralidade radical!!!!!! Nosso conceito de "política" tem sido esse. Uma espécie de arranjo criado pós ditadura para manter privilégios. Quando a oposição chegou ao poder esse jogo se formalizou definitivamente, a polarização instituiu o processo, pois ou a esquerda fugia aos princípios democráticos ou........ Ou? Essa é a resposta que não conseguimos dar ainda. Uns dizem que não deveria ter entrado na dança; outros acham que é tudo farinha do mesmo saco; há quem pense que o poder corrompe; e, ainda, alguns defendem que viver é aprender a jogar. O que eu acho realmente importante, sempre, é a gente perceber que essa "política" não está lá no parlamento, e nós aqui alheios a essa conduta. Não. Barganhamos conquistas com nossos filhos, pagamos, penalizamos, com nossos parceiros afetivos, colegas de trabalho, funcionarios e inimigos..... Onde houver uma relação de poder surgirá essa dificuldade de estabelecer igualdade de forças em prol de um bem comum. Ficamos fascinados pela disputa pois temos necessidade de discórdia, impotentes que somos, e não de resolver as questões objetivamente. Afinal, o que importa é competir na meritocracia. Aprendendo a olhar para nosso microcosmo politico podemos atuar de outra forma na politica social. Óbvio que esse Congresso é o pior da história já que reflete o momento mais passivo que a sociedade já viveu. Dizemos amém pra tudo (bebemos refrigerante cancerigeno e comenos comida transgênica!!!), sim, nosso congresso nos representa. Aumentamos nossa consciência mas diminuimos nossa intervenção. Por que? Porque precisamos reinventar nossa participação. Voto e passeata não dão mais conta. Não funcionam. Precisamos descobrir ONDE está o NOSSO poder. Esse papo de que o poder está no voto é conversa manipulada. O voto é consequencia da ação e não a ação. Passeata até coxinha faz. Não. Temos um outro poder, claro e óbvio, mas que só não vemos porque ainda pensamos como oprimidos, como gado. E para enxergar, ou criar, as soluções precisamos parar de pensar/sentir/agir como gado falante proto-pensante. Desconstruir nosso papel de oprimido no âmbito coletivo, mas também de opressor no âmbito individual. Uma coisa depende da outra, porque uma coisa sustenta a outra. Quanto mais oprimida é sua potência pelo social, mais opressor vc se torna no individual (seja com os outros seja consigo que é um outro de si). Precisamos sair dessa visão de mundo, e não achar outras formas de atuar nela!! É diferente. Resumindo, colega, tem um Eduardo Cunha reinando dentro de vc!!! Mata, por favor?!?!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

UMOJA, uma comunidade sem homens.

Então, há mais de 20 anos, um grupo de mulheres no Quênia, cansou de ser estuprada, espancada, mutilada e submetida às normas patriarcais da sua comunidade. Fugiram, lideradas por Rebecca Lolosoli, uma das tantas mulheres mal tratadas. Fixaram-se num pedaço de terra desprezado pelas péssimas condições de sobrevivência e sobreviveram.

Criaram Umoja, uma comunidade onde homens são proibidos, a não ser os nascidos ali, e que respeitem as regras da comunidade. Sem hierarquias, apenas sob a liderança de Rebecca, construíram suas casas e um centro cultural onde vendem seu artesanato para sobreviver. Conseguiram replantar naquela terra e enviar seus filhos para escola, o que não era possivel na comunidade de origem.

Hoje lutam por direitos civis e tornaram-se referência para muitas outras mulheres da região e pelo mundo. Publico dois pequenos artigos e um belo video delas cantando. O possível nascendo do impossível.


video

Artigo na Revista Galileu

Artigo de Walter Passos

Dilma lava as mãos mais uma vez

A sra presidenta do Brasil vai acabar com uma doença de pele nas mãos se continuar nessa lavagem constante. Todo mundo sabe que excesso de limpeza tem consequências. Se não botar a mão na lama deixa de ser humano.

E é de humanidade que precisamos falar: mortes humanas. O problema das mortes de mulheres em decorrência de abortos não é um tema de ordem religiosa, não é de ordem criminal, não é um tema de ordem política (pelo menos não deveria ser); é um tema de saúde pública.

Todos sabemos que a maioria da população é contrária a legalização do aborto, porque a maioria da população não diferencia suas crenças religiosas dos interesses civis. Apesar de pretendermos um Estado democrático, onde a opinião da maioria deva ser atendida, estamos ainda no começo da transição entre uma robotização da ditadura e uma democracia de fato, de livre pensar.

O papel do Estado, nesse momento de transição, é mais difícil, delicado e necessário do que em qualquer outra fase. Para atingir a democracia de fato é fundamental dar vozes a todos os seguimentos da sociedade, dar direitos civis, dar condições de saúde, alimentação e educação. Antes disso, toda administração pública fica comprometida.

Filhos da ditadura que somos, a maioria de nós não quer dar vozes a todos os seguimentos da sociedade. Fazemos o que então? Esclarecemos a todos da importância da igualdade de direitos e, no próximo milênio, quando a maioria das mentalidades concordarem, daremos direitos às minorias excluídas? Até lá, continuamos a ver negros, homossexuais, trans e travestis, mulheres, pobres, umbandistas, etc, etc,etc, serem mortos, violentados, desrespeitados, submetidos ao poder normativo estabelecido???

Qual é o papel do Estado nesse momento?

Seria ótima essa discussão de qual é o papel do Estado nesse momento, mas, nesse momento, não estamos nem discutindo o papel do Estado, porque nosso Estado está por demais comprometido para ser um Estado.

Não sou a favor da nenhum tipo de centralização do poder pelo Estado, longe disso. Mas, há uma diferença entre ser um Estado centralizador e ser um Estado executivo. Quero dizer com isso que o Estado executivo não impõe leis ou normas a partir do seu próprio interesse, ou do grupo que o sustenta (como é na ditadura e como temos visto, inclusive). O que estou chamando de Estado executivo é um Estado de princípio democrático. Porém, confunde-se democracia com opinião da maioria. Democracia não é a opinião da maioria. Democracia é a igualdade de direitos, mesmo quando isso significa a opinião de uma minoria. A sra. presidenta sabe disso. A opinião da maioria só é interessante nos objetivos político-eleitoreiros, mesmo quando estes são contrários à democracia.

Uma lógica simples, e de tão simples, revela que a posição assumida por Dilma na seguinte entrevista:

Para Dilma, Estado não deve entrar na questão do aborto.


é um posicionamento bastante demonstrativo da sua total submissão às forças político-econômicas que estão atuando dentro e fora do Congresso. É em calcanhares de aquiles como a defesa da causa indígena ou a defesa do aborto livre que finalmente concluímos que o Governo de Dilma não é um governo que prima pela democracia. Está submetido à ditadura do capital.

Poderíamos argumentar que a tal governabilidade que caracteriza essa ginga sem fim da presidenta, é uma estratégia para atingir sim, um Estado democrático, porém dentro de condições mais propícias que as do momento. Ou seja, ela vai jogando de todos os lados para permanecer no poder e, aos poucos, conseguir estabelecer as mudanças necessárias. Temos que convir que o jogo não está nada fácil: o cenário político brasileiro é caótico, risível, ignorante e politicamente infantil. Temos hoje em cargos representativos anomalias humanas que não serviriam nem pra síndico. Nesse sentido, valorizo muitas conquistas do PT no governo esses anos todos.

Só que a Dilma está nessa fogueira porque está priorizando os grupos que vão derrubá-la. E enquanto tenta se manter no poder, outros poderes estão se consolidando e direcionando as decisões do país.

Que o jogo político é complexo ninguém tem dúvida. Minha dúvida é se as mortes de hoje valem à pena por supostas conquistas no futuro.

Na minha opinião, não. Na minha opinião, o futuro só existe enquanto suposição. Na minha opinião, a defesa de direitos é urgente e prioritária. Na minha opinião, a sra presidenta está sendo omissa e covarde; uma mulher sem peito e sem convicção.

Ou, talvez, eu esteja enganada e a convicção da sra presidenta seja exatamente essa que ela expressa na sua omissão.

De uma coisa eu não tenho dúvida: isentar o Estado dessa decisão quanto a legalização do aborto e jogar o abacaxi para as mãos desse Congresso conservador, que tende a extremar uma posição contrária, vai colocar nossa presidenta contra a parede. Então, no paredão, ou ela erguerá os braços pedindo clemência e baixando a cabeça ao poder vigente, ou ela romperá os botões da sua camisa de força, expondo seu coração valente, enfrentando uma bala contra o peito.

Hahahahahahaha, pena que o tempo do romantismo acabou faz tempo!!

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Dividir e conquistar: os conflitos e violências da intervenção federal no Tapajós


O que está acontecendo com os índios pelo Brasil é exatamente igual ao que acontece com a gente da cidade, só que com menos evidência porque não resistimos tanto quanto os nativos resistem a serem separados de si mesmos. Nós somos arrancados de nossa própria natureza, enfraquecidos em nossa própria potência todos os dias e o máximo que fazemos é cara feia ou reclamações de facebook. Para povos da terra a perda da cultura é idêntica a perda da vida física, e por isso lutam colocando-se diante da morte. Não veem outra forma de viver. Leia neste texto como é articulada a luta contra nosso índios e me diga se existe alguma diferença do que vivemos diariamente de muitas formas....


Texto urgente de Dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu e presidente do Cimi.

Dividir e conquistar: os conflitos e violências da intervenção federal no Tapajós

Atribui-se ao imperador romano Júlio César (+44 a.C.) a expressão “Divide et impera”. O ditado sugere que para um povo perder sua força e seu brio e assim ser mais facilmente dominado, a estratégia é dividir, criar discórdia, jogar uns contra os outros. Provocar a divisão entre os povos e populações locais é uma estratégia histórica e sistematicamente usada pelos governos e grupos econômicos interessados na exploração dos recursos naturais até então de usufruto exclusivo destes povos e populações.

Link: http://goo.gl/MXQhfY


Os governos e grupos econômicos usam esta estratégia da divisão para romper ou enfraquecer a resistência destes povos que, evidentemente, não se conformam e não aceitam o fato de terem suas terras invadidas, sua cultura agredida, seus projetos de vida destruídos.

Os governos e grupos econômicos não hesitam em provocar, favorecer e alimentar fraturas políticas entre potenciais aliados dos povos e populações locais que se opõem aos seus interesses. Usam esta artimanha a fim de colocar em lados opostos pessoas e organizações que poderiam estar articuladas e atuando conjuntamente no apoio e fortalecimento da resistência destes povos e populações.

Os governos e grupos econômicos defendem a tese segundo a qual os povos, populações locais e organizações de apoio seriam os “sujeitos da violência” nesses processos. Por isso, qualquer mobilização que se contraponha aos interesses do governo e dos grupos econômicos é rotulada de “baderna”, “arruaça”, “confusão”, “agitação”, “violência”. É o típico caso de “culpabilização da vítima”. Tentam assim camuflar o fato de que são eles próprios os protagonistas da violência e justificam o uso da força policial do Estado para implementar seus interesses. Invariavelmente aplicam a estratégia da “criminalização” de lideranças a fim de enfraquecer qualquer resistência.

Os governos e grupos econômicos nunca assumem a responsabilidade pelos desequilíbrios e fraturas políticas. Sempre jogam a culpa em alguma organização, alguma pessoa ou grupo de pessoas que atuam nas respectivas regiões.

Essas premissas se aplicam hoje perfeitamente à região do Tapajós, onde o governo pretende construir o chamado “Complexo Hidroelétrico do Tapajós”. Representantes do governo bem treinados e desprovidos de qualquer tipo de senso ético atuam com grande afinco na região, de modo especial junto aos Munduruku, povo que impõe a maior resistência ao projeto governamental.

Preocupados damo-nos conta de que o governo federal e os grupos econômicos têm alcançado relativo sucesso nesta estratégia, especialmente no que tange à provocação de divisões e desequilíbrios entre os Munduruku e potenciais aliados deles na região. A obstinação do governo federal em cumprir o calendário de viabilização do Complexo Hidroelétrico do Tapajós está causando sérios conflitos e violências. A “divisão interna” provocada pela intervenção federal entre os Munduruku e daqueles que lutam em defesa do projeto de vida do povo, contribui para que o governo, as empreiteiras e os grupos econômicos avançam, desdenhando de quem não reza por sua cartilha, na implementação de seu projeto de morte.

O momento exige bom senso, serenidade, ausculta aguçada às necessidades do povo e diálogo entre caciques, guerreiros e demais lideranças Munduruku na busca de consenso sobre as formas de ações que possam efetivamente impedir a construção das hidroelétricas no Tapajós e a consequente desestruturação do povo.

Afirmamos nosso compromisso e disposição de apoio irrestrito à luta dos Munduruku contra os projetos de morte que os ameaçam.